Podemos considerar violenta, mórbida e sem escrúpulos a história de Dogville. Um filme brilhante de Lars Von Trier, autor/realizador consagrado pela forma carregada e negra em que nos serve de bandeja contextos da vida comum da nossa sociedade e os aspectos mais negros dela. Ao rever Dogville apercebi-me que essa carga negativa está presente não só na história mas também na ausência de cenários. Uma longa metragem totalmente gravada em chão negro, em que quase tudo é fictício: as estradas, as casas, onde quase todo o cenário não passa de traços brancos no chão.
Resolvi ver o filme pela terceira vez, de um outro prisma. Sabendo que a interpretação dos actores nesta história é forçosamente mais importante do que a imagem de todo o filme – onde acho importante salientar a brilhante representação de Nicole Kidman – canalizei a minha atenção para os objectos do inexistente cenário que tinham mais relevância na história. Ao entrarmos em Dogville, com uma banda sonora apaixonante e a voz penetrante do narrador, chegamos à conclusão de que afinal de contas as paredes, portas e estradas não são realmente necessárias para nos prenderem ao ecrã, basta o som dos mesmos que, esse sim, está presente ao longo do filme.
Dogville é uma aldeia simples, de gente simples e isso também nos é mostrado pela ausência de cenários. Não poderia ser melhor de outra maneira. A ideia é brilhante, o filme seria muito mais “pesado”, mais doloroso, se não nos fosse entregue de uma forma tão teatral. O facto de nos ser explicado o conceito e, de certa forma, descrita a maneira de ser de cada personagem apaixona qualquer um e prende o olhar à história que quase não nos deixa pestanejar.
A meio da longa metragem quase não damos por isso que na realidade não há cenários pois começamos a conseguir imagina-los lá. O encanto maior de tudo isto é que cada parede é da cor que cada um de nós quiser imaginar, cada recanto de Dogville é um enigma, até que a nossa própria imaginação diga o contrário... O céu fica do tom da nossa criatividade e cada porta é do tipo de madeira ou metal que a nossa mente quiser... Pode dizer-se que Lars Von Trier fez o gentil favor de, à excepção da história em si, deixar ao nosso critério tudo, ou quase tudo, neste filme.
A história em si é negra, drástica, desprovida de sorrisos que possam ser esboçados pelo público, mas não seria Von Trier se o guião fosse escrito de outra forma. Não é este o realizador que nos vai fazer rir, mas tem outros encantos... A frieza com que nos mostra as coisas de que somos capazes é surpreendente em qualquer filme que realiza. Mau cinema? Má escrita? Muito pelo contrario! É com respeito que acho que deve ser tratado este artista. A sua obra pode ser sombria mas é de uma qualidade impar e talvez possa arriscar dizer que é sem precedentes.
Não há cinema sem filmes considerados não comerciais. Penso que quem é tão apaixonado por cinema como eu acredita nesta máxima. Dogville não é um filme não comercial, é uma obra de arte, uma longa metragem diferente, cada vez que a revemos. E vale a pena rever, redescobrir, alterar os cenários inexistentes com a nossa imaginação. Prestar atenção a todos os actores desta obra prima, prestar-lhes vassalagem e perceber que na realidade uma história destas seria muito mais pesada e sinistra, embora que comum nos dias que hoje correm. Von Trier sensibiliza este tipo de atitudes de que o filme nos fala da forma mais clara possível. Agradeço a Dogville por isso, por poder rever os podres da sociedade em que vivemos com os olhos da nossa imaginação e por ter a certeza que é esta a melhor maneira de ver que não podemos mudar sem reconhecer os seus aspectos mais negativos.
Dogville é, acima de tudo, uma grande experiencia de vida.
Resolvi ver o filme pela terceira vez, de um outro prisma. Sabendo que a interpretação dos actores nesta história é forçosamente mais importante do que a imagem de todo o filme – onde acho importante salientar a brilhante representação de Nicole Kidman – canalizei a minha atenção para os objectos do inexistente cenário que tinham mais relevância na história. Ao entrarmos em Dogville, com uma banda sonora apaixonante e a voz penetrante do narrador, chegamos à conclusão de que afinal de contas as paredes, portas e estradas não são realmente necessárias para nos prenderem ao ecrã, basta o som dos mesmos que, esse sim, está presente ao longo do filme.
Dogville é uma aldeia simples, de gente simples e isso também nos é mostrado pela ausência de cenários. Não poderia ser melhor de outra maneira. A ideia é brilhante, o filme seria muito mais “pesado”, mais doloroso, se não nos fosse entregue de uma forma tão teatral. O facto de nos ser explicado o conceito e, de certa forma, descrita a maneira de ser de cada personagem apaixona qualquer um e prende o olhar à história que quase não nos deixa pestanejar.
A meio da longa metragem quase não damos por isso que na realidade não há cenários pois começamos a conseguir imagina-los lá. O encanto maior de tudo isto é que cada parede é da cor que cada um de nós quiser imaginar, cada recanto de Dogville é um enigma, até que a nossa própria imaginação diga o contrário... O céu fica do tom da nossa criatividade e cada porta é do tipo de madeira ou metal que a nossa mente quiser... Pode dizer-se que Lars Von Trier fez o gentil favor de, à excepção da história em si, deixar ao nosso critério tudo, ou quase tudo, neste filme.
A história em si é negra, drástica, desprovida de sorrisos que possam ser esboçados pelo público, mas não seria Von Trier se o guião fosse escrito de outra forma. Não é este o realizador que nos vai fazer rir, mas tem outros encantos... A frieza com que nos mostra as coisas de que somos capazes é surpreendente em qualquer filme que realiza. Mau cinema? Má escrita? Muito pelo contrario! É com respeito que acho que deve ser tratado este artista. A sua obra pode ser sombria mas é de uma qualidade impar e talvez possa arriscar dizer que é sem precedentes.
Não há cinema sem filmes considerados não comerciais. Penso que quem é tão apaixonado por cinema como eu acredita nesta máxima. Dogville não é um filme não comercial, é uma obra de arte, uma longa metragem diferente, cada vez que a revemos. E vale a pena rever, redescobrir, alterar os cenários inexistentes com a nossa imaginação. Prestar atenção a todos os actores desta obra prima, prestar-lhes vassalagem e perceber que na realidade uma história destas seria muito mais pesada e sinistra, embora que comum nos dias que hoje correm. Von Trier sensibiliza este tipo de atitudes de que o filme nos fala da forma mais clara possível. Agradeço a Dogville por isso, por poder rever os podres da sociedade em que vivemos com os olhos da nossa imaginação e por ter a certeza que é esta a melhor maneira de ver que não podemos mudar sem reconhecer os seus aspectos mais negativos.
Dogville é, acima de tudo, uma grande experiencia de vida.
Ricardo Daniel
ricardoalexdaniel@gmail.com

1 comments:
é verdade sim, Grande filme!
Enviar um comentário